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Crise Corporativa e o Mercado Brasileiro: O que as falências e saídas do país ensinam sobre gestão desde 2020?

Como a falta de controle operacional e previsibilidade financeira transformou um cenário incerto em um risco letal para as empresas.

28 de agosto de 2026
Douglas Simões de Menezes

Por Douglas Simões de Menezes

Diretor Comercial da Nortinf Tecnologia Inteligente

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De grandes multinacionais a tradicionais empresas brasileiras, os últimos anos foram marcados por encerramento de fábricas, saída de determinados mercados, recuperação judicial e falências. O fenômeno revela uma combinação de fatores que vai muito além de uma única causa: pandemia, juros elevados, endividamento, mudanças no consumo, concorrência internacional, problemas de gestão e transformações estruturais nos modelos de negócio.

Desde 2020, o ambiente empresarial brasileiro passou por uma sequência de mudanças profundas. Algumas empresas decidiram reduzir sua presença no país ou abandonar determinadas linhas de negócio. Outras chegaram ao limite financeiro e recorreram à recuperação judicial. E algumas não conseguiram sobreviver ao processo de reestruturação e acabaram tendo a falência decretada.

O movimento ganhou força especialmente após a pandemia de Covid-19, mas suas causas não podem ser atribuídas exclusivamente à crise sanitária.

Empresas que reduziram ou encerraram operações no Brasil

Um dos casos mais emblemáticos foi o da Ford.

Em janeiro de 2021, a montadora anunciou o encerramento da produção de veículos no Brasil e o fechamento de suas fábricas em Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Horizonte (CE). A empresa passou a atuar no país principalmente como importadora. A decisão foi associada pela companhia à estratégia global, à baixa utilização das fábricas e à rentabilidade da operação.

A Ford, portanto, não desapareceu completamente do mercado brasileiro, mas abandonou a produção nacional de veículos.

Outro caso importante ocorreu com a Mercedes-Benz.

Em dezembro de 2020, a montadora encerrou a produção de automóveis em sua fábrica de Iracemápolis, no interior de São Paulo. Os modelos Classe C e GLA passaram a ser importados, enquanto a empresa manteve no país a produção de caminhões e ônibus. A fábrica posteriormente foi vendida para a chinesa Great Wall.

Na área de tecnologia, a Sony também reduziu drasticamente sua presença.

A empresa fechou sua fábrica em Manaus e, em 2021, anunciou o encerramento das vendas de televisores, câmeras e equipamentos de áudio no mercado brasileiro. A operação de games, incluindo o PlayStation, além de outras áreas do grupo, permaneceu no país.

Esses exemplos mostram que “sair do Brasil” nem sempre significa abandonar completamente o mercado. Em muitos casos, significa reformular a operação, reduzir investimentos, importar produtos ou concentrar esforços em segmentos considerados mais rentáveis.

Quando a crise chega ao caixa: a recuperação judicial

Outro fenômeno que ganhou destaque desde 2020 foi o aumento das recuperações judiciais.

A recuperação judicial não significa que uma empresa necessariamente faliu. Trata-se de um mecanismo legal para tentar reorganizar suas dívidas e preservar a atividade empresarial.

Em 2020, foram registrados 1.179 pedidos de recuperação judicial no Brasil. Em 2021, foram 891.

Nos anos seguintes, entretanto, grandes empresas passaram a ocupar as manchetes.

Ricardo Eletro

A Máquina de Vendas, controladora da Ricardo Eletro, entrou em recuperação judicial em 2020.

A empresa já enfrentava dificuldades financeiras e posteriormente teve a falência decretada duas vezes em 2022, embora as decisões tenham sido revertidas pela Justiça. O caso se tornou um dos símbolos da crise enfrentada pelo varejo tradicional.

Grupo Itapemirim

O caso Itapemirim é ainda mais emblemático.

Tradicional gigante do transporte rodoviário brasileiro, o grupo já estava em recuperação judicial desde 2016. Em 2021, lançou a companhia aérea ITA durante um dos períodos mais difíceis da história do setor de aviação.

A operação aérea durou apenas alguns meses e terminou com a suspensão repentina dos voos, deixando milhares de passageiros sem atendimento.

Em setembro de 2022, a Justiça de São Paulo decretou a falência do Grupo Itapemirim. O passivo ultrapassava R$ 2 bilhões quando considerados débitos tributários e previdenciários.

O caso demonstra como uma empresa já fragilizada financeiramente pode ter sua situação agravada por decisões de expansão realizadas em um momento inadequado.

2023: o ano em que grandes empresas chegaram ao limite

Se existe um ano que simboliza a crise empresarial brasileira recente, é 2023.

Um dos maiores casos foi o da Americanas.

Em janeiro daquele ano, após a divulgação de inconsistências contábeis bilionárias, a varejista entrou com pedido de recuperação judicial.

A dívida declarada na época era de aproximadamente R$ 43 bilhões, envolvendo cerca de 16,3 mil credores. O processo se tornou um dos maiores pedidos de recuperação judicial da história brasileira.

O caso Americanas chamou atenção não apenas pelo tamanho da dívida, mas porque mostrou que uma empresa de grande porte, com presença nacional e acesso ao mercado de capitais, também pode enfrentar uma crise de liquidez e confiança capaz de comprometer sua continuidade.

Grupo Petrópolis

O setor de bebidas também entrou no radar.

O Grupo Petrópolis, dono de marcas como Itaipava, Petra e Black Princess, entrou em recuperação judicial em 2023.

A dívida estimada na época estava na faixa de R$ 4,2 bilhões a R$ 4,4 bilhões. Entre os fatores apontados estavam o alto custo financeiro, investimentos realizados durante a expansão, queda de receitas e aumento dos custos operacionais e de insumos.

O caso é relevante porque mostra que a crise não ficou restrita ao varejo.

Indústria, bebidas, transporte, tecnologia, construção e serviços também passaram a enfrentar dificuldades.

Light

Em maio de 2023, foi a vez do Grupo Light recorrer à recuperação judicial.

A holding responsável pela concessionária apresentou dívidas estimadas em aproximadamente R$ 11 bilhões.

O processo envolveu uma particularidade importante: a legislação não permitia que a própria concessionária de serviço público de energia entrasse em recuperação judicial, de modo que a proteção judicial ficou concentrada no grupo controlador.

123milhas

O setor de turismo também sofreu.

Em agosto de 2023, o Grupo 123milhas protocolou pedido de recuperação judicial, envolvendo empresas como 123milhas, HotMilhas, MaxMilhas e outras companhias do grupo.

A empresa afirmou que a medida buscava organizar os débitos e permitir a continuidade das operações e o pagamento de clientes, fornecedores e demais credores.

O episódio evidenciou uma mudança importante no comportamento do consumidor: empresas baseadas em ofertas extremamente agressivas e modelos digitais passaram a enfrentar dificuldades quando a estrutura financeira não acompanhava o crescimento da operação.

Starbucks e Subway: quando a marca internacional permanece, mas o operador brasileiro entra em crise

Em 2023, a SouthRock Capital, responsável pela operação brasileira de marcas como Starbucks e TGI Fridays, entrou em recuperação judicial.

O pedido envolvia aproximadamente R$ 1,8 bilhão em dívidas.

O caso ganhou repercussão porque a crise envolveu não apenas o endividamento, mas também a relação contratual com marcas internacionais. A Starbucks chegou a rescindir a licença da SouthRock em meio à crise.

É importante destacar:

Starbucks não faliu no Brasil.

Quem entrou em recuperação judicial foi a SouthRock, empresa responsável pela operação de determinadas marcas no país.

Essa diferença é fundamental para compreender o que realmente aconteceu.

Livraria Cultura e Saraiva

O setor editorial apresentou outro exemplo de transformação estrutural.

A Livraria Cultura teve sua falência decretada pela Justiça em fevereiro de 2023, em um processo que vinha sendo acompanhado havia anos.

A Saraiva também acabou tendo sua falência decretada em 2023, após anos de dificuldades financeiras.

A crise dessas empresas não pode ser explicada apenas pela situação econômica brasileira. A mudança no comportamento do consumidor, o crescimento do comércio eletrônico e a transformação do mercado editorial também tiveram papel relevante.

Esse é um exemplo clássico de que nem toda falência é provocada exclusivamente por impostos ou juros.

Em determinados setores, a tecnologia mudou completamente a forma como o consumidor compra.

Polishop

O varejo continuou enfrentando dificuldades em 2024.

A Polishop teve seu pedido de recuperação judicial aceito pela Justiça de São Paulo em maio daquele ano.

A empresa apontou entre os fatores da crise o fechamento do comércio durante a pandemia e o aumento dos juros.

Mais uma vez, aparece a combinação de dois elementos:

queda ou transformação da receita + aumento do custo financeiro.

E o problema não terminou em 2024

Os anos de 2025 e 2026 mostram que a pressão sobre as empresas brasileiras continua.

Segundo a Serasa Experian, 2025 registrou 977 processos de recuperação judicial e 2.466 empresas envolvidas, o maior volume de CNPJs em recuperação judicial da série apresentada pela instituição.

E 2026 trouxe alguns dos casos mais expressivos.

O caso Oi: da recuperação judicial à falência

Em agosto de 2026, a Justiça do Rio de Janeiro confirmou a falência da Oi.

A empresa já havia passado por uma gigantesca recuperação judicial iniciada em 2016 e por um segundo processo iniciado em 2023, com dívidas na casa de dezenas de bilhões de reais.

A falência havia sido decretada anteriormente, mas decisões judiciais suspenderam temporariamente seus efeitos. Em agosto de 2026, o Tribunal de Justiça do Rio confirmou a falência.

O caso Oi é especialmente significativo porque representa a queda de uma das maiores empresas de telecomunicações do país.

Casas Bahia

Em 2026, outro gigante do varejo entrou em recuperação judicial.

O Grupo Casas Bahia apresentou pedido para renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo, além de outros passivos que elevam o endividamento total para valores ainda maiores.

A companhia anunciou medidas severas de reestruturação, incluindo fechamento de centenas de lojas e redução do quadro de funcionários.

O caso mostra que a crise do varejo brasileiro está longe de ser um fenômeno isolado.

Habib's

Em agosto de 2026, o Grupo Gennius, controlador de marcas como Habib's, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial.

O grupo apresentou dívidas de aproximadamente R$ 265,2 milhões.

Segundo informações divulgadas no processo, a empresa foi afetada por uma combinação de fatores que inclui os efeitos da pandemia, mudanças provocadas pelo crescimento do delivery e aumento da taxa Selic.

O que esses casos têm em comum?

Apesar de pertencerem a setores completamente diferentes, muitos desses casos apresentam elementos recorrentes.

1. Juros elevados

Quando uma empresa possui dívida significativa, a taxa de juros passa a ter impacto direto sobre sua capacidade de sobrevivência.

Uma operação que parecia sustentável com crédito barato pode se tornar inviável quando o custo financeiro aumenta.

2. Endividamento excessivo

Empresas podem crescer rapidamente utilizando capital de terceiros.

O problema surge quando a geração de caixa não acompanha o crescimento da dívida.

3. Mudança no comportamento do consumidor

Livrarias, varejistas, restaurantes e empresas de turismo sentiram profundamente a mudança nos hábitos de consumo.

O consumidor passou a comprar mais pela internet, utilizar aplicativos, comparar preços em tempo real e buscar conveniência.

4. Pandemia

A pandemia acelerou problemas que já existiam.

Empresas com modelos frágeis tiveram seus problemas antecipados.

5. Má gestão

Não seria correto atribuir todas as crises exclusivamente ao cenário econômico.

Em determinados casos, decisões administrativas, expansão excessiva, aquisição de empresas, estrutura de capital inadequada ou problemas de governança também contribuíram significativamente para a deterioração financeira.

6. Falta de adaptação

Talvez esse seja um dos pontos mais importantes.

Empresas não competem apenas por preço.

Competem por eficiência, tecnologia, velocidade, informação e capacidade de adaptação.

O Brasil está vivendo uma onda de falências?

É preciso ter cuidado com essa afirmação.

Recuperação judicial e falência não são a mesma coisa.

Uma empresa em recuperação judicial ainda está tentando sobreviver.

A falência, por outro lado, representa uma etapa muito mais grave.

Inclusive, dados recentes mostram que o recorde observado em 2025 foi de recuperações judiciais, e não de falências. Segundo dados citados pelo UOL Confere, houve 5.680 empresas nessa situação no quarto trimestre de 2025, enquanto foram registrados 686 processos de falência no ano.

Isso muda completamente a interpretação dos números.

O aumento das recuperações judiciais pode indicar que mais empresas estão chegando ao limite financeiro e buscando proteção jurídica antes que a falência aconteça.

O que isso significa para as empresas brasileiras?

Talvez a principal lição dos últimos anos seja que faturamento não é sinônimo de saúde financeira.

Uma empresa pode vender muito e ainda assim estar financeiramente fragilizada.

Pode possuir centenas de funcionários, milhares de clientes, marcas conhecidas e presença nacional, e mesmo assim enfrentar uma crise de liquidez.

Por isso, empresas que pretendem atravessar períodos de instabilidade precisam acompanhar indicadores muito além do faturamento.

É necessário monitorar:

  • geração de caixa;

  • endividamento;

  • custo financeiro;

  • margem operacional;

  • produtividade;

  • custos fixos;

  • inadimplência;

  • estoque;

  • eficiência operacional;

  • retorno sobre investimentos;

  • capacidade de adaptação tecnológica.

A lição para empresários

Os casos Ford, Sony, Mercedes-Benz, Itapemirim, Americanas, Grupo Petrópolis, 123milhas, SouthRock, Livraria Cultura, Saraiva, Polishop, Oi, Casas Bahia e tantos outros possuem histórias completamente diferentes.

Não existe uma única explicação para todos eles.

Mas existe uma característica comum:

o mercado não espera.

Empresas que não conseguem acompanhar mudanças econômicas, tecnológicas e comportamentais podem perder competitividade rapidamente.

E, em um ambiente de juros elevados, crédito mais seletivo e consumidores mais sensíveis a preço, ineficiência deixa de ser apenas um problema operacional e pode se transformar em um problema financeiro.

A sobrevivência empresarial, portanto, não depende apenas de vender.

Depende de vender com margem, operar com eficiência, controlar custos, administrar riscos, utilizar dados para tomar decisões e antecipar problemas antes que eles cheguem ao caixa.

Conclusão

Os últimos seis anos deixaram uma mensagem clara para o mercado brasileiro:

empresas grandes também quebram.

Marcas tradicionais também podem desaparecer.

Multinacionais podem reduzir suas operações.

Empresas que parecem sólidas podem entrar em recuperação judicial.

E empresas que entram em recuperação podem, eventualmente, chegar à falência.

Ao mesmo tempo, os casos analisados mostram que crise empresarial raramente possui uma única causa. Em geral, ela surge da combinação entre cenário econômico, estrutura financeira, gestão, tecnologia, comportamento do consumidor e capacidade de adaptação.

Para o empresário, talvez essa seja a maior lição do período pós-2020:

A crise raramente começa quando o dinheiro acaba. Ela começa muito antes, quando os sinais deixam de ser percebidos.

Por isso, gestão baseada em dados, controle de custos e capacidade de antecipar riscos deixaram de ser diferenciais e passaram a ser elementos fundamentais para a sobrevivência de qualquer operação.

Na Nortinf, acreditamos que o mesmo princípio se aplica à gestão de frotas: quanto mais uma empresa conhece sua operação, mais cedo consegue identificar desperdícios, ineficiências e riscos.

Porque crises podem ter muitas causas, mas quase sempre deixam sinais antes de se tornarem grandes demais para serem ignorados.

Imagem

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Sobre o Autor

Douglas Simões de Menezes

Douglas Simões de Menezes

Diretor Comercial — Nortinf Tecnologia Inteligente

Douglas Simões de Menezes é especialista em gestão estratégica de frotas e Diretor Comercial da Nortinf Tecnologia Inteligente. Autor das obras A Armadilha do Rastreamento Veicular e Como Transformar sua Frota em uma Máquina de Dinheiro, Douglas acumula mais de duas décadas de atuação no setor de transporte.

Sua trajetória é marcada pelo desenvolvimento de soluções avançadas em telemetria, rastreamento e tecnologias aplicadas à logística. Como especialista na área, dedica-se a transformar dados operacionais em inteligência estratégica, orientando empresas na redução de custos, otimização da eficiência operacional e elevação dos padrões de segurança em suas operações.